segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O desencanto de Gregório




Essa crítica foi escrita por Fábio Prikladnicki para o FRTN deste ano, mas não entrou no site do festival e o magiluth coloca aqui só pra você (ehehehehehe)!
E a foto maravilha é de Val Lima (obrigado Val)

Como um anti-herói existencialista temporão, Gregório é suspeito de ter matado um homem,
mas seu julgamento se dá em outros termos. O júri se recusa a dar o veredito sem antes
questionar: ele é um homem bom? Este é o mote que conduz a peça O Canto de Gregório,
do Grupo Magiluth (PE), que esteve em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho dentro da
programação do XIV Festival Recife do Teatro Nacional.

Nome que remete ao de Gregor Samsa, de A Metamorfose, de Kafka, Gregório é uma mistura
entre outro personagem do escritor tcheco, o Josef K. de O Processo, preso sem ter cometido
crime algum, e Meursault, protagonista de O Estrangeiro, de Camus, que vai a julgamento
por ter assassinado um homem sem motivo aparente. Gregório duvida que a bondade seja
possível. Perdido em incertezas e incapaz de chegar a qualquer conclusão sobre as grandes
questões da existência, busca como interlocutores figuras tão díspares entre si como Jesus,
Sócrates e Buda. É impossível saber se tudo não é apenas fruto de sua mente angustiada. A
peça começa e termina com a imagem de Gregório só, iluminado por um feixe de luz.

Escrito pelo paulista Paulo Santoro, O Canto de Gregório foi o primeiro texto de um dos
participantes do Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc-SP a
ser levado aos palcos. Foi em 2004, com direção do veterano Antunes Filho, coordenador do
CPT. No elenco, estavam Arieta Corrêa, Juliana Galdino e Emerson Danesi, entre outros. A
versão do Magiluth, com direção de Pedro Vilela, estreou este ano. O teatro da companhia não
é desagradável, como diria Nelson Rodrigues, mas tem a intenção de ser desconfortável. O
público entra ao som de um ruído musical. A sala é um inóspito poliedro branco. A plateia fica
apertada em bancos sem encosto. E o discurso de Gregório é árido como o verão do Recife
sem praia.

Embora o ator Pedro Wagner garanta a consistência do desencantado personagem-título, é
na sátira que a companhia pernambucana alcança seus melhores momentos. De fato, talvez
Gregório seja o único sujeito sério da história; os demais orbitam a seu redor como se tivessem
saído de um episódio da série do Monty Python. O que não é nada mal. Uma irresistível
capacidade de subverter a ordem, de brincar com a tradição, de mandar o pudor às favas é o
que se espera de uma companhia relativamente jovem (no caso, criada em 2004), que chega
com a promessa de arejar a cena teatral. A caracterização de Giordano Castro como Buda,
para pinçar um exemplo, é hilária. A peça se move neste contraste de registros. É impossível
saber o que é mais absurdo: o denso fluxo de pensamentos de Gregório ou o irresistível
deboche de seus interlocutores e de seus julgadores. Jesus aparece com dois rapazes, e
Sócrates (interpretado por vários atores), com óculos espelhados. A certa altura, o juiz saca um
pacote de batatas chips e, depois, um pirulito.

Mergulhado em paradoxos, Gregório tem o discurso de um epígono de filósofo existencialista,
despido do frescor do século XX. Declara-se incapaz de concluir se é culpado ou inocente;
tampouco acredita que haja uma terceira categoria. Se assim acreditasse, seria, em sua visão,
como admitir que há apenas um número limitado de opções. Em meio a uma prolixidade por
vezes maçante, destaca-se a crítica, hoje mais do que nunca pertinente, à lógica essencialista
que atribui uma marca indelével ao sujeito a partir de um ato (uma vez culpado, sempre
culpado). Não é que Gregório mereça ser absolvido; é que o julgamento objetivo (culpado ou
inocente) simplesmente não está em questão. Aquele que comete um crime pode, ainda assim,
ser um homem bom?

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