domingo, 11 de setembro de 2011

sobre Gregório em Guaramiranga

 

 
Camila Vieira
ENVIADA A GUARAMIRANGA
camilavieira@opovo.com.br

O percurso era um corredor estreito, onde ecoavam ruídos incômodos. Antes de entrar no espaço cênico, uma recomendação: tirar os sapatos. Com os pés descalços, era possível tatear o chão de linóleo branco, da mesma cor que as paredes e as nove cadeiras dispostas em cena. Em um destes assentos, um rapaz atordoado, absorto em pensamentos. Este era o cenário inicial da peça O Canto de Gregório, apresentada pelo Grupo Magiluth, de Pernambuco, na noite da última quinta-feira, na Mostra Nordeste do 18º Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga.

Na contramão da programação do FNT em que os clowns predominavam, o espetáculo pernambucano propôs uma montagem visceral, que de cara chamou a atenção do espectador. Não apenas pela densidade dramatúrgica – o texto do paulista Paulo Santoro, do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), outrora dirigido pelo mestre Antunes Filho em 2004. Mas especialmente pelo minimalismo das soluções cênicas encontradas: desde a caixa cênica como cubo branco à economia dos objetos e dos figurinos e à simplicidade da sonoplastia.

Na trama, o protagonista-título angustia-se por não ser um homem bom. De início, o pensar e o sentir são confrontados. Depois de uma série de elucubrações, a bondade parece ser logicamente impossível. Dar uma esmola para um mendigo é um gesto do intelecto ou da compaixão? Diante de suas dúvidas que se amontoam, Gregório trava embate com vários personagens-ícones da moral: Jesus, Sócrates e Buda. O diálogo em tom sério ganha aos poucos uma envergadura irônica.

Na época da montagem original, Antunes Filho reconhecia a complexidade do texto, carregado de referências teológicas e filosóficas, que costuram a trama para caminhar na contracorrente do que se costuma ver na dramaturgia contemporânea. “É um texto que arrebata, mas é difícil acompanhar. Para capturar o público, o empenho dos atores é fundamental”, afirmou Antunes, em entrevista para a TV Cultura em 2004.

De fato, o que mais se percebe na montagem do Grupo Magiluth é o desempenho de seus quatro atores: Pedro Wagner, Giordano Castro, Erivaldo Oliveira e Lucas Torres. No papel de Gregório, Wagner demonstrou presença forte, auxiliado também pelos outros três atores, que fizeram os papéis secundários. Todos contribuíram com exercícios cênicos durante os nove meses de processo de criação da montagem. “Somos atores-criadores. A ideia inicial de cenografia era uma grande mesa, mas chegamos ao cubo branco porque o personagem é confuso, mas busca a clareza, a razão. Pensamos também no espaço como uma folha em branca a ser borrada”, explica Wagner, que também foi diretor do espetáculo na sua fase inicial.

Formado por estudantes oriundos do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Pernambuco, o grupo surgiu há seis anos e já montou outros trabalhos que prezam a pesquisa e a experimentação: Corra (2007), Ato (2008) e 1 Torto (2010). Com direção de Pedro Vilela, a nova versão de O Canto de Gregório buscou uma forma diferente daquela proposta por Antunes: reduziu o número de atores e fez com que eles ficassem mais próximos do público, que é convidado a participar da cena como júri do julgamento de Gregório. “Pensamos o lugar da plateia e como provocar desconforto a partir de uma noção de jogo”, acrescenta Pedro Wagner.

Outro ponto forte da montagem é o uso criativo de objetos cênicos, que ganham estatuto de imagem visual, sonora ou até mesmo olfativa, especialmente na cena do tribunal. Quando o protagonista lembra da mãe, um cheiro forte de talco impregna o espaço. Ao falar da polícia, um carrinho de brinquedo com sirenes vermelhas destaca-se na escuridão. O bom uso das soluções cênicas foram apontadas por André Magela, um dos debatedores do festival. “Fico apenas me questionando se falta dar conta melhor do texto verborrágico e pretensamente filosófico”. No entanto, as soluções bem humoradas do grupo tem brilho suficiente para ganhar mais força e consistência nas próximas apresentações do espetáculo.

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