quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Gregório por Tuah Castillo


Gregório é um homem diante da esfinge. Ele é sua própria esfinge e a de cada espectador.
“Decifra-me ou te devoro!”
Gregório sofre por não poder solucionar os vários paradoxos sobre a “bondade”, ou mesmo sobre condição humana e os ideais para com ela. Vejo nele o medo de descobrir que a bondade é uma ideia demasiado ilusória. Pedro Wagner nos transmite essa angústia ao encarnar Gregório em seus clamores.
Percebo como o tema desse espetáculo é importante nos dias de hoje em que as pessoas parecem ter perdido a fé na bondade humana através de conceitos como: “O homem não presta!”.
Contudo o canto de Gregório não é um texto simples. Para tentar fazer-se acreditar na veracidade da bondade Gregório, em seus diálogos consigo ou com os outros personagens, procura aferrar-se a vários sistemas explicativos e corroborantes da existência da bondade, que são derrubados pela ácida ironia das outras personagens. Enquanto Gregório está sempre sério e irritadiço os outros atores trazem o sarcasmo e a ironia para corroerem as atrofiadas respostas de fugas dos paradoxos de Gregório.
É visível como Gregório é devorado ao descobrir que não se sabe ao descobrir que não sabe se é um homem bom ou não. Ele é julgado, dentro ou fora de si, pela morte de uma pessoa. Ele sabe e declara sinceramente que disparou e matou, mas até que ponto isso faz dele uma pessoa má?
Não pensemos que o texto de O Canto de Gregório é apenas provocativo, não é mero jogo de ideias de um texto bem escrito, também não é um texto de perguntas fáceis. Como falei, ele é a esfinge um texto a ser completado e decifrado pelo espectador. Reduzir o espetáculo a mero impressionismo teatral é esterilizar toda a obra sob a forma de mera mercadoria para o consumo “cultural”.
Ao se questionar, Gregório se confronta com o simbólico constitutivo da sociedade ocidental, especialmente os paradigmas que engendram nossa forma moderna de viver. Logo nas primeiras falas, Gregório declara que seu pensamento voa mais alto que suas emoções, há um desprezo destas em favor da racionalidade, um elemento importante do surgimento do pensamento moderno. Gregório espera que a racionalidade possa dar-lhe todas as respostas, as emoções poderiam assemelhar-se à animalidade da pessoa humana, neste contexto.
Operando apenas com a lógica linear, “dura”, ele deseja compreender coisas como a sinceridade, honestidade, altruísmo, generosidade, intencionalidade e bondade. Que demandam um raciocínio ambivalente em certa medida, uma outra lógica de pensamento.
Pode-se perceber como o tempo todo Gregório usa conceitos duros e pré-fabricados, um contra o outro, saindo de uma cilada para outra, debilmente identificando o caráter de verdade em cada afirmação que faz. Ele não consegue criticar a própria lógica de questionamento.
Gregório fica estarrecido ao se dar conta e como a sociedade se constitui pela barbárie. – Como acreditar na bondade humana se nossa forma de viver é sempre violenta em certa medida? – Como é possível ser bom se temos que matar e mastigar outros seres para viver? – A sobrevivência é  também um ato de violência.
No desespero da dúvida que o devora, Gregório busca em Deus uma solução, como obter a bondade, ou ser bom, de maneira genuína? O problema é que ele se dá conta que os atos de bondade, supostas provas de sua existência, não passam de rituais de conduta para que as pessoas possam acreditar-se “boas” ou seria melhor dizer que são conformadas? Conformidade social não é bondade, me parece mais com liberdade negativa.
Ele percebe como as táticas sociais são assimiladas para dissimular a barbárie da forma de viver, anestésicos sociais. Em Jesus Cristo é que Gregório espera encontrar algum ensinamento ou revelação transcendental da bondade. E aí é que Cristo vem sarcasticamente mostrar-lhe que não possível saber nada sobre Deus. O Deus que Gregório busca é na verdade uma projeção de um Macho Onipotente, o mito da sociedade fálica. A bondade seria um risco, um salto para o abismo, não se pode limitar à segurança, à fiança ou a alguma troca. Era preciso dar o primeiro passo em direção a bondade, ou à “não violência”, ser o exemplo, disse o Cristo para Gregório.
Eis que num impulso Gregório decide fazer um pacto de paz consigo, sonhando com o dia em que as diferenças não significassem nada, nada mesmo, elas seriam estupidamente esvaziadas de sentido, mais importante era a Paz. Um ateu concordaria em tudo com o crente, como se amar fosse idêntico a aprovar. Ninguém mais se importaria com nada, sem preocupações todos seriam felizes, rindo como hienas, um riso de tolos, fingindo serem felizes. Ignorar os problemas não solucioná-los.
O prazer em ignorar a realidade, em ser ignorante, é outro anestésico social, um dos mais perigosos. Esvaziamos o valor de tudo através do relativismo onde as diferenças e as tensões sociais entre elas são falsamente anuladas, como que se ficassem invisíveis. Os poderes, contradições, perversidades explorações, crimes, violências que operam e se revelam nelas nas contradições existentes em nossa sociedade são ignoradas sob o pretexto de paz.
Lembro-me de Marcelino Freire em Rasif e seu poema sobre a paz. A paz é muito branca, muito limpa, muito organizada. A Paz precisa é de sangue !!
“Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz? (Rappa – Minha Alma)” – A paz da ignorância é um anestésico muito venenoso.
Nas ciladas da lógica argumentativa linear do relativismo, Gregório e Sócrates não sabem se é melhor ter um princípio é algo válido, ou se ter muitos ou nenhum princípio é válido para viver. O princípio seria uma tentativa de, pelo pensamento limitado, determinar a imprevisível realidade; conceber e assegurar uma forma de ser feliz pelo pensamento já concebido como algo falho. A questão é “Se somos limitados no pensamento, como podemos assumir que este código de conduta dará conta de nos fazer felizes na imprevisibilidade do acaso?” – Não podemos enquadrar a realidade da vida num sistema, capturando-a, assumindo conhecer tudo sobre ela e depois acreditar ter o poder de dizer qual é a formula da felicidade. Esta é a prática são reduzidas à sua utilidade, são esvaziadas em seus sentidos. Tudo possui uma Razão de Ser, cada coisa e cada pessoa é tomada como uma peça que tem sua função pré-determinada e ser feliz é servir a este propósito, “princípio”.
A cena do julgamento de Gregório expõe ainda mais a sociedade de controle na tradição do Direito. A personagem do juiz encarna a indiferença e a falta de alteridade em relação ao réu. A intimidade do réu não tem valor algum diante dos rituais do Direito. O que importa é que decidam se Gregório está certo ou errado, o juiz está ali como algoz apenas, para executar a sentença, o comportamento da personagem mostra como a figura do juiz não exerce a capacidade de mediar a análise das circunstâncias do crime. Essas sensações se confirmam pela atitude do juiz quando sem alguma paciência tenta apressar o julgamento e quando se enfada começa a chupar balas, pirulito, comer salgadinhos. – A sociedade tem pressa em encontrar o culpado, é preciso sentenciar logo alguém para que ele mostre seu poder de coerção.
A personagem do promotor de justiça é muito eloquente, ele tem a mesma pressa e uma sede enorme de atestar que Gregório é sim o culpado, pois o promotor já tem esta certeza, os fatos não mentem, eles seriam autoexplicativos. Para ele, se Gregório matou é logicamente uma pessoa perversa. Ele é incapaz de vez a sinceridade de Gregório. O promotor encarna a cólera da nossa sociedade em manter a barbárie reproduzida para reproduzir sua forma de poder e a forma de viver das pessoas, o status quo.
Se houve transgressão (crime) deve haver um culpado e há demasiada pressa em encontrá-lo e supliciá-lo em praça pública ou televisiva. Esse é o papel do Estado, administrar a barbárie de maneira exemplar para simbolicamente e pragmaticamente afirmar seu poder de controle e destruição, o Estado poderia ser comparado ao deus da morte brincando de deus da vida. Os tribunais encarnam o direito de violência do Estado.
É o júri que procura inserir certa mediação das circunstâncias. Uma vez que já se sabe que Gregório matou de fato alguém, para o júri um dado menos “duro” é importante para a formação de sua opinião: “Gregório é um homem bom?”.
O júri inicia uma inversão da estrutura desumanizada do julgamento que queria através do endurecimento dos fatos fazer “justiça” desconsiderando a importância antropológica do crime. Nem mesmo Gregório acredita na vontade do júri, ele que a esta altura parecia ter certeza de sua pena. Esta ultima pergunta do júri perfura ainda mais a identidade de Gregório sem salvar-lhe, ele não sabe a resposta, não consegue encontrar um só motivo para provar-se bom. Abandonado às ciladas do pensamento ele se desespera completamente. Um desejo ardente por ser bom, mendiga uma misera razão para a autopiedade, para ter fé na pessoa humana. O ator que interpreta Gregório nos faz sentir esta dor.
Ele finda por desejar não pensar, não ver, não sentir, que não exista o pensamento, nem a linguagem, nem o verbo, nem o tempo, nem o ser. Todo o questionamento de Gregório figura como um processo de autodestruição. Me pergunto se um questionamento genuíno não teria sempre certa dose de autoviolência . Gregório se perde nesse processo e é devorado pela esfinge da dúvida ambivalente, é incapaz de ir além da estrutura de seu próprio pensamento. Ele consegue expor certas contradições, mas não todas. A própria forma questionar de Gregório carrega um ritual que supõe uma capacidade encontrar uma verdade genuína inegável. As limitações da linguagem decepcionam nosso Gregório, ele rejeita as emoções e as ambiguidades, por isso sua lógica é linear. Busca que o conceito pré-fabricado se aplique à realidade através de uma espécie de cimento discursivo.
Contudo vejo em Gregório um compromisso com a busca da verdade, ele tem a sede de questionar, pode até ser um anti-herói, mas não se contenta em não ter respostas, a dúvida o corrói, Gregório não suporta ser um ignorante, não suporta ser pessimista em relação à vida, ele busca a todo tempo uma esperança para a vida humana além de sua miséria. Gregório ama a vida, mesmo que não se dê conta disso, é um pessimismo da esperança o que move Gregório.

Acho que essa deveria ser a nossa atitude depois de sermos todos incomodados pelas dúvidas de Gregório, que, se já não eram, passam a ser também as nossas dúvidas. Acho que essa deve ser a nossa atitude, como um tipo de anti-herói, Gregório revela a impossibilidade de viver o amor e a generosidade com uma estrutura de pensamento tão rígida e até desumana, é um desafio à sanidade mental. É preciso aprender a pensar o mundo, a ser no mundo de uma outra forma para não nos destruímos como Gregório. Pobre Gregório.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

AQUILO QUE MEU OLHAR GUARDOU PARA VOCÊ



AQUILO QUE MEU OLHAR GUARDOU PARA VOCÊ
Grupo Magiluth
Estreia nacional no Janeiro de Grandes Espetáculos.
27 de janeiro, às 19 horas, no teatro Hermilo Borba Filho.

Direção
Grupo Magiluth e Luiz Fernando Marques

Dramaturgia
Giordano Castro

Direção de Arte
Guilherme Luigi e Thaysa Zooby

Iluminação
Pedro Vilela

Elenco
Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Pedro Vilela e Pedro Wagner

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O Canto de Gregório - GRATUITO



Olá Amigos, no dia 26/01 estaremos (além de nervosos pela estreia do “Aquilo que meu olhar guardou para você”) gravando uma série sobre Teatro, para esse evento vamos apresentar pra eles o nosso espetáculo “O Canto de Gregório”.

Essa apresentação será GRATUITA e acontecerá no dia 26 às 10h da manhã na sala da Compassos cia. de Dança. Pedimos para os interessados cheguem às 9:30 na frente da Brotfabrik (padaria da rua da moeda) pra pegar o convite uma pessoa da produção.

Alguém tá afim de ir?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

18º Janeiro de Grandes Espetáculos



O Canto de Gregório
Texto: Paulo Santoro.
Direção: Pedro Vilela.
Elenco: Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres e Pedro Wagner.
Direção de arte: Guilherme Luigi, Cecília Pessoa e Renata Gamelo.
Sonoplastia: Mohammed Thelma.
Iluminação: Pedro Vilela
Realização: Grupo Magiluth

Ps: O Teatro de Santa Isabel já está vendendo ingressos antecipados para quase todo o 18º Janeiro de Grandes Espetáculos. Diferente dos outros anos, as apresentações que acontecerão no próprio Santa Isabel também entram nessa, assim como as dos teatros Marco Camarotti, Hermilo Borba Filho, Luiz Mendonça, Barreto Júnior e Apolo. Vale se agendar e correr na central de Vendas do Santa Isabel, aberta diariamente das 10 às 16h.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Se foi 2011





Já bebemos o ano que passou... sorrimos ele até o finalzinho e escondido choramos ele também. Às vezes a gente se calava na janela da sala e acendia um cigarro, foi muito melhor do que jogar palavras ao vento, nessa janela também a gente paquerou, olhou os atrasados chegarem e tiramos fotos para um projeto muito foda (Rumos Itaú de Teatro)! A gente colocou um chuveiro na sala... foi massa, agora a gente toma banho olhando o céu. E quando o bebedouro com água chegou? A gente tomou muita água gelada também e Vilela reclamou que estávamos bebendo muito agora. E sem dinheiro a gente almoçou biscoito e montamos Gregório e levamos aquela casa branca para o Hermilo, Marco Camarotti, Guaramiranga, FRTN, ouvimos e anotamos tudo o que disseram pra gente e muita gente falou desse tal gregório em jornais e blogs... o torto sem querer querendo, voltou... fez temporada (de novo? Já já ele bate o Ato) e foi pra fortaleza, lá ele foi abraçado com muito carinho pelo Teatro Imaginarium (Thaís, Samanta e Moises) e Magela deu uma pagina inteira pra falar dele... Fizemos novos amigos, uma penca de gente de Brasília todos muito queridos, mas teve também de Curitiba (Toda a Brasileira e a Silenciosa) e Ata, teve de BH (Espanca!), teve RS(ói nóis), RN (a deriva e sempre os Clowns), CE (uma Galera..), BA (A Outra, Roquildes), SC (ERRO), RJ (Bendito), MT (Alta Floresta), Caramba... é tanta gente que é melhor parar pra não esquecer de ninguém, pois essas listas são danadas pra fazer isso conosco! Mas existem alguns em especial A LINDA Sonia Sobral que além de Linda é uma pessoa fantástica e teve (junto com mais um grande time) a ideia de Rumos Teatro (projeto divisor de aguas para nosso trabalho) que aproximou a gente de mais duas figuras lindas o Francis e o Lubi. Francis com jeitinho de falar que apaixona deu dicas fortes e nos presentou com o nome: AQUILO QUE MEU OLHAR GUARDOU PARA VOCÊ e o Lubi agitado e sonhador nos afoga de tanto entusiasmo e veio conosco para o novo trabalho... aquele que o Francis batizou: AQUILO QUE MEU OLHAR GUARDOU PARA VOCÊ... mas esse eu não tenho como falar muito não... ele só estreia em Janeiro... mas teve gente que já viu muito do que ele é e do que vai ser... abrimos processo e abrimos a sala também e com ela aberta chegou Elias Mouret e o pessoal do Coletivo Nó (http://eliasmouret.blogspot.com/) que hoje tá ensaiando e lendo muito Shakespeare, faz um bem danado ler esse homem... Mas faz também é um bem danado viver com Vilela, Pedrinho, Lucas, Eri, Zooby, Gentil, Guilherme e mais um monte de amigos que a gente quer sempre juntinho... Ainda continuamos conversando sobre filmes, trocando mp3, tentando começar o ensaio na hora, arrumando a sala do cenário que tá sempre bagunçada, fazendo rá-rá pra comprar coca-cola e está terminantemente proibido de mandar alguém tomar no c*&@*#¨& na hora da briga! Até ano que vem...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O desencanto de Gregório




Essa crítica foi escrita por Fábio Prikladnicki para o FRTN deste ano, mas não entrou no site do festival e o magiluth coloca aqui só pra você (ehehehehehe)!
E a foto maravilha é de Val Lima (obrigado Val)

Como um anti-herói existencialista temporão, Gregório é suspeito de ter matado um homem,
mas seu julgamento se dá em outros termos. O júri se recusa a dar o veredito sem antes
questionar: ele é um homem bom? Este é o mote que conduz a peça O Canto de Gregório,
do Grupo Magiluth (PE), que esteve em cartaz no Teatro Hermilo Borba Filho dentro da
programação do XIV Festival Recife do Teatro Nacional.

Nome que remete ao de Gregor Samsa, de A Metamorfose, de Kafka, Gregório é uma mistura
entre outro personagem do escritor tcheco, o Josef K. de O Processo, preso sem ter cometido
crime algum, e Meursault, protagonista de O Estrangeiro, de Camus, que vai a julgamento
por ter assassinado um homem sem motivo aparente. Gregório duvida que a bondade seja
possível. Perdido em incertezas e incapaz de chegar a qualquer conclusão sobre as grandes
questões da existência, busca como interlocutores figuras tão díspares entre si como Jesus,
Sócrates e Buda. É impossível saber se tudo não é apenas fruto de sua mente angustiada. A
peça começa e termina com a imagem de Gregório só, iluminado por um feixe de luz.

Escrito pelo paulista Paulo Santoro, O Canto de Gregório foi o primeiro texto de um dos
participantes do Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc-SP a
ser levado aos palcos. Foi em 2004, com direção do veterano Antunes Filho, coordenador do
CPT. No elenco, estavam Arieta Corrêa, Juliana Galdino e Emerson Danesi, entre outros. A
versão do Magiluth, com direção de Pedro Vilela, estreou este ano. O teatro da companhia não
é desagradável, como diria Nelson Rodrigues, mas tem a intenção de ser desconfortável. O
público entra ao som de um ruído musical. A sala é um inóspito poliedro branco. A plateia fica
apertada em bancos sem encosto. E o discurso de Gregório é árido como o verão do Recife
sem praia.

Embora o ator Pedro Wagner garanta a consistência do desencantado personagem-título, é
na sátira que a companhia pernambucana alcança seus melhores momentos. De fato, talvez
Gregório seja o único sujeito sério da história; os demais orbitam a seu redor como se tivessem
saído de um episódio da série do Monty Python. O que não é nada mal. Uma irresistível
capacidade de subverter a ordem, de brincar com a tradição, de mandar o pudor às favas é o
que se espera de uma companhia relativamente jovem (no caso, criada em 2004), que chega
com a promessa de arejar a cena teatral. A caracterização de Giordano Castro como Buda,
para pinçar um exemplo, é hilária. A peça se move neste contraste de registros. É impossível
saber o que é mais absurdo: o denso fluxo de pensamentos de Gregório ou o irresistível
deboche de seus interlocutores e de seus julgadores. Jesus aparece com dois rapazes, e
Sócrates (interpretado por vários atores), com óculos espelhados. A certa altura, o juiz saca um
pacote de batatas chips e, depois, um pirulito.

Mergulhado em paradoxos, Gregório tem o discurso de um epígono de filósofo existencialista,
despido do frescor do século XX. Declara-se incapaz de concluir se é culpado ou inocente;
tampouco acredita que haja uma terceira categoria. Se assim acreditasse, seria, em sua visão,
como admitir que há apenas um número limitado de opções. Em meio a uma prolixidade por
vezes maçante, destaca-se a crítica, hoje mais do que nunca pertinente, à lógica essencialista
que atribui uma marca indelével ao sujeito a partir de um ato (uma vez culpado, sempre
culpado). Não é que Gregório mereça ser absolvido; é que o julgamento objetivo (culpado ou
inocente) simplesmente não está em questão. Aquele que comete um crime pode, ainda assim,
ser um homem bom?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O que a lama não leva


Com muito orgulho o Magiluth gostaria de apresentar “O que a lama não leva” um curta-documentário dirigido por Thiago Lira com produção da Candiero Produções e o Grupo Magiluth. Depois de ter passado e viajado por alguns festivais o curta está disponível na rede: http://www.youtube.com/watch?v=Nj8CY3ePAyY Assistam e divulgem!